Qual a distância adequada para observar uma obra de arte? E o que existe ali, afinal, para ser visto? Devemos começar pelo tema ou pela forma? Ou pelo modo como o artista articulou os materiais segundo uma determinada técnica? Talvez pela maneira como a peça se articule com o lugar de exposição? O que importa mais: as intenções conscientes do artista ao produzir um discurso no campo da estética e da poética ou as inúmeras interpretações pelas quais o observador pode derivar enquanto aprecia um trabalho de arte?

Os trabalhos de Ismael Monticelli propõem inúmeras questões, tanto no âmbito do debate artístico, quanto no território das indagações existenciais. Um campo e outro, alimentados por uma única certeza: a de que não temos garantias efetivas quanto a encontrar um modo de perceber a realidade que não seja parcial.

Seus objetos feitos de vidro jogam com os limites entre opacidade e transparência e, assim como nas imagens fotográficas, operam com a tensão entre uma racionalidade geométrica contraposta a um emaranhado de gestos – os grafismos que chegam quase ao negro total ou a indeterminação do significado nas cenas de paisagens –, signo ativo da existência no mundo sensível. Exatidão – esta poderia ser considerada a palavra-chave para encaminhar uma leitura das obras apresentadas por Monticelli, desde que articulada ao seu oposto conceitual. As imagens e formas que remetem às ideias de rigor, de ordem e precisão, são invadidas ou acompanhadas pelos rumores do mundo sensível, pela desmedida, pelas coisas que se sucedem sem ter um fim.

Retornando ao começo, talvez a boa distância para observar e se deixar tocar por uma obra de arte seja aquela que preserva o tempo necessário para uma vivência na qual sentimento e cognição operem em seus níveis máximos. Parafraseando Ítalo Calvino, um contato que perceba a obra como complexidade, abarcada ao mesmo tempo em toda a “sua limpidez e em seu mistério”.

 

 

 

Texto publicado originalmente no folder da exposição A paixão faz das pedras inertes, um drama, realizada no Goethe-Institut, Porto Alegre/RS, 2011. 

um caminho entre as pedras

Por Ana Maria Albani de Carvalho

 

2011