To see a World in a grain of sand,
And a Heaven in a wild flower,
Hold Infinity in the palm of your hand,
And Eternity in an hour.


 

[Ver um Mundo num grão de areia,

E um Céu numa flor selvagem,
Segurar o Infinito na palma da sua mão,
E a Eternidade numa hora.][1]

 

 

A constatação de que vivemos em um mundo permeado pelo excesso de imagens, hiperacelerado, como que em uma turbulência constante, parece ser uma espécie de ponto de partida da obra de Ismael Monticelli. Tais aspectos da contemporaneidade possuem efeitos colaterais nítidos: a crescente dificuldade que temos de nos deter em um mesmo assunto por um intervalo prolongado de tempo, bem como um lento e contínuo embotamento do olhar, cada vez mais cego para as miudezas do mundo, reflexo de um estado ansioso dominante.

Os trabalhos de Ismael surgem como espécies de respostas poéticas para tal “zeitgeist”. Partindo das entrelinhas do cotidiano, do seu quarto, do ateliê, da poeira acumulada pelos dias, dos cabelos que caem, dos plásticos bolha que o cercam, dos grãos de farinha, o artista faz disso tudo, antes, restos coadjuvantes, protagonistas.

Na série fotográfica O deserto dos tártaros, o processo inicia-se com o gesto de coletar objetos e restos do cotidiano de sua casa – poeira, farinha de trigo, espelho de banheiro, fragmentos de plástico e sacolas de supermercado etc. – no intuito de forjar paisagens através da combinação desses elementos.

As imagens que compõem a série surgem como paisagens, não sabemos se lunares, desérticas, nevadas, mas certamente distantes do barulho urbano que nos acossa diariamente. Mas, note-se, ao olharmos para essas fotos quase nada ali denuncia a sua origem prosaica. Valendo-se de recursos triviais, precários mesmo, como movimentar um pedaço de plástico bolha na frente da lente da câmera e daí “criar” uma tempestade, o artista instaura um “outro lugar”. Passada a época na qual os sonhos de mudança possuíam uma escala heroica, em tempos pos-utópicos como o nosso, o artista parece articular heterotopias possíveis.[2]

Aqui, o que era sujeira, bagunça, ganha ordem, prumo. Se o início do trabalho se dá na casa do artista, um microcosmo, o que vemos é uma paisagem de dimensões dilatadas. A fotografia joga com a escala da paisagem. Aquilo que é mínimo, banal, ganha protagonismo. Como doar coesão, solidez, para o que é frágil e quase invisível, como enxergar a chance de uma fertilidade poética em pedaços esquecidos do dia a dia?

A poeira é a materialização do tempo que passa. Mais ainda, evoca o tempo passado sem que tenhamos operado qualquer ação que vise maquiar o passar das horas. A poeira é índice do tempo passado e deve ser removida, pois traz com ela certa melancolia, o peso do tempo, o peso da vida.

A despeito de serem feitas a partir de refugos, as fotos que vemos em O deserto dos tártaros exalam assepsia e mistério. Por um lado, são a consequência de um esforço para doar ordem ao caos inerente à vida; por outro, conformam-se como desafios para o olhar. O que mesmo estamos vendo? Tendemos a figurar o abstrato, buscando assim o atalho, mesmo que ilusório, a fim de não permanecermos na zona da dúvida; mas é aí mesmo que o artista quer nos colocar.

Ismael nos faz lembrar que, nos cantos de uma casa, vivem fragmentos de montanhas; sobre a cama ou o sofá, moram desertos áridos; dentro do armário, alpes nevados. Olhe para o lado, ali, bem ali, quem sabe você avistará todo um mundo. Um quarto torna-se uma galáxia. É possível passar alguns dias no espaço, sem sair de casa. Nesse processo, delírio e ordem mesclam-se. Sonho e imaginação caminham ao lado de uma postura cartesiana, daí o paradoxo que nos instiga diante dessas obras.  

Na série Mundo fulgurante, veem-se estruturas de vidro colocadas uma em seguida da outra, bem próximas, e, entre elas, nuvens de poeira. Cada uma dessas peças traz consigo uma pequena placa de metal gravada com o nome de um território/ilha/país presente na literatura, entre os quais Abaton (My Heart’s in the Highlands, de Thomas Bulfinch) e Desparia (Relation du pays de Jansénie, où il est traitté des singularitez qui s’y trouvent, des coustumes, mœurs et religion de ses habitans, par Louys Fontaines, sieur de Saint Marcel de Zacharie de Lisieux); a evocação da literatura é constante na obra de Ismael.

O título Mundo fulgurante sinaliza para a inversão de sinais promovida pelo artista. Em uma época na qual o regime do espetáculo e do exibicionismo dá as cartas, na qual tudo deve ser esquadrinhado, catalogado, é justamente nessa época que fazer da poeira aquilo que brilha se converte em gesto político, sem ser panfletário, tampouco ilustrativo. Fulgurante quer dizer aquilo que brilha, é lancinante, intenso, relampeja. No universo poético de Ismael, é justamente ali, no mais comezinho e opaco, que vibra uma insuspeita luz.

Um trabalho como esse, seco, minimalista na forma e sintético no discurso, permeado por influências literárias, é no mínimo raro, espécie de paradoxo, o segundo, pois antes vem aquele que conjuga em um só campo bagunça e ordenação, sujeira e assepsia. A literatura é a força da imaginação necessária para que elementos mínimos, quase invisíveis, ou seja, quase não existentes, sejam a fatura que edifica todo um universo.

Somente potencializando radicalmente a capacidade de criarmos, inventarmos novos mundos perante a vida diária, pois a “verdadeira vida está ausente”, é que se inaugura isso que chamamos de arte, que, muito antes de ser aquilo que está num museu ou na galeria, é um ato, um gesto, uma transfiguração decisiva do mundo ao redor. Nesse caminho, o artista/pesquisador e o artista/leitor conjugam-se, de Georges Didi-Huberman[3] a Italo Calvino, ambos alimentam igualmente essa investigação.

Esse chamado para um olhar mais atento aos pequenos milagres, para uma parada em meio ao frenesi que nos consome desde dentro, sem anunciar, essa ida para um estado de contemplação, tudo isso me lembra um trecho de Histórias de cronópios e de famas, de Julio Cortázar, que vale ser transcrito: “Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida, passe bem. Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.”[4]

É no campo dessa resistência de que nos fala Cortázar que, me parece, opera o trabalho de Ismael. Estamos diante de uma obra que tem na ascese um princípio, mas não um fim. O artista afasta-se do mundo para mais bem notá-lo em suas entrelinhas. Afinal, como custa negar uma colherinha, negar tudo o que o hábito suaviza ao ponto de não mais enxergarmos e respondermos às coisas somente da forma já catalogada. É em favor de uma lida diversa, mais intensa, singular e orgânica com as pequenas coisas do mundo que os trabalhos hoje reunidos perseveram.

 

***

 

A obra de Ismael, atravessada por um misto de força conceitual e delicadeza poética, tem como alvo não a metafísica, aquilo que habita o mundo das ideias, mas sim o mundo das coisas mesmas, o que nos faz recordar as bases do pensamento fenomenológico. A fenomenologia é uma vertente filosófica que doa primazia para a dimensão sensível da experiência. Tal primazia foi, de certa maneira, uma resposta à filosofia moderna, que, ao internalizar a verdade na consciência do sujeito, no cogito, tomava o mundo como objeto, apartando-o e distanciando-se dele. O mundo desaparecia como exterioridade, mas reaparecia, sólido e certo, como uma experiência mental. A fenomenologia é justamente uma resposta que doa dignidade filosófica ao sensível e busca desfazer a separação entre sujeito e objeto. Recordando esses termos básicos dessa linhagem composta por nomes como Merleau-Ponty e Edmund Husserl, notamos o quanto na obra do artista há um investimento em um olhar para o qual o sentido não habita além do mundo físico, mas sim nas coisas mesmas, nos entes, nos objetos, nas partículas, mesmo que quase invisíveis. Se, por um lado, há aqui uma potente dimensão conceitual, por outro a sua origem se encontra num pacto coeso e sutil com a experiência sensível mais corriqueira.

Os demais trabalhos aqui reunidos, como a série Jack Harris Jigsaw, Manual de instruções para encontrar paisagens em casa e Colírios, seguem essa mesma trilha, chamam-nos para construir um quebra-cabeça cuja imagem final é quase pura abstração, revertendo a tradição paisagística dos mesmos e sua vontade original de “esquadrinhar” o que vemos; convidam-nos a experimentar colírios cujas bulas sugerem que possamos ver o mesmo de maneira distinta tendo como inspiração a obra de diferentes pensadores e escritores, de Benjamin a Proust; ou ainda uma proposição na qual levamos para casa um cartaz que nos ensina a encontrar paisagens em casa, sinalizando para uma crença de que essa potencialização do cotiando, tirando-nos de um estado anestesiado, estaria ao alcance de cada um de nós.

O trabalho de Ismael Monticelli possui uma força forjada na delicadeza, força esta necessária para lidarmos com um tempo sôfrego e brutal como o nosso. Na sua ascese, essa obra incorpora uma ética, toma partido da discrição em tempos de espetáculo, da atenção na época da distração contínua, do murmúrio em meio ao estardalhaço. A exposição Todas as coisas, surgidas do opaco nos endereça uma segunda pele para o mundo, tirando-o da opacidade e desvelando os tão pequenos quanto preciosos índices de vida que habitam as frestas. Universos inteiros que vivem, silenciosamente, em cada canto da minha, da sua casa. Resta sabermos parar, e termos olhos para ver e ouvidos para escutar.

 

 

 

[1] BLAKE, William. Auguries of Innocence. In: The Works of William Blake. Londres: The Wordsworth Poetry Library, 1994. p. 127.

 

[2] Ver FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: ______. Ditos e escritos III - Estética: Literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

 

[3] Desse autor, no que toca a pesquisa de Ismael Monticelli, interessa especialmente Grisalha – Poeira e poder do tempo. Trad. R. P. Cabral. Lisboa: KKYM+IHA, 2014.

 

[4] CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. p. 24.

 

 

 

Texto publicado originalmente no catálogo da exposição Todas as coisas, surgidas do opaco, realizada no Santander Cultural, Porto Alegre/RS, 2014. 

todas as coisas, surgidas do opaco

Por Luisa Duarte

 

2014