Representações de pessoas costumam ser inseridas nas maquetes de projetos arquitetônicos não apenas para das uma dimensão da construção, mas principalmente para estabelecer uma identificação com o sujeito que observa.

 

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Embora os trabalhos de Monticelli gravitem em torno de temas como tempo e suspensão, o meio que os articula é o vidro. Não o vidro invisível, que passa despercebido, mas o material utilizado ativamente para alterar a experiência do observador. Exemplos disso são as sequências de fotografias expostas sob camadas de vidro. Da primeira de cada série (com apenas uma camada) a última (com 17), o efeito é de passagem do tempo – um entardecer no cenário fotografado ou um esmaecer do papel fotográfico, mesmo que as imagens por trás do vidros sejam iguais.

As séries foram captadas no sítio dos pais do artista, em Glorinha, onde as figuras humanas quase desaparecem em meio à imensidão do ambiente natural. O mesmo ocorre no vídeo de pequeno formato, criado em parceria com os irmãos Adriano e Fernando Guimarães, de Brasília, em que um personagem se posiciona quase como objeto inanimado no horizonte. É preciso parar para perceber: o único movimento, e mesmo assim muito sutil, é o da vegetação.

- Acho que a exposição é sobre fracasso e estagnação. Se o público passar apressadamente, vai fracassar em sua experiência. Consequentemente, as obras vão fracassar como material de reflexão, e eu, como artista – afirma Monticelli.

Nas instalações no centro da galeria, bonecos de cerca de 1,5 centímetros de altura são dispostos entre placas de vidro de 30 por 30 centímetros paralelas à base. Aqui e ali, aparecem também representações de árvores de galhos secos, um poste de luz e escadas. Mas nada leva a lugar algum, a interação é impossível. Em uma das instalações, dois personagens estão frente a frente cada um sobre uma base que gira lentamente, como um disco, ao som de The Way You Look Tonight, de Peggy Lee. Um outro tipo de fracasso, como observa o artista:

- É como uma coreografia, mas não implica que os personagens estejam conectados. Existe uma comunicação que não comunica. Eles não conseguem ultrapassar estas barreiras.

Não é por acaso que “conexão” é uma palavra recorrente para Ismael Monticelli. Sua arquitetura poética é o testemunho de um tempo em que a tecnologia fornece ferramentas para emular o efeito da presença física. São trabalhos que falam sobre a necessidade de se desacelerar quando desacelerar já não parece mais uma opção possível.

 

 

 

Texto publicado originalmente no Segundo Caderno do Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS, 5 de outubro de 2011.

tempo de vidro

Por Fábio Prikladnicki

 

2011