É possível, o silêncio?

O poeta descobre o murmúrio no movimento das formigas por baixo (e por cima) da terra.

O dramaturgo toma a palavra de suas personagens. No lugar delas, coloca o ruído, o silêncio, a estupefação. O vazio.

Será possível a equivalência entre vazio e silêncio?

Será possível a relação entre o escuro e o silêncio?

Em um espaço receptáculo, um local supostamente neutro (se é possível pensar-se a neutralidade em qualquer construção da cultura) a presença quase descarnada da coleção de vidros transparentes é, ao mesmo tempo, veemente e etérea. É ocupação por quase nada. Vidros resgatados no escuro dos meandros das coleções obsessivas, para nada. De dentro de um quarto da antiga casa em um bairro parado no início do século vinte. São reflexivos, mas não espelhos. São matéricos, mas deixam antever o que os sustenta, quase sem massa. Transparência.

Para essa ocupação insidiosa, olha o vazio da cadeira. Como mediador entre objeto e objeto, entre sujeito e sujeito, um piano mudo.

Vamos ouvir...

Há conversa entre silêncios?

Talvez a ação poética contemporânea seja isso: aproximar (amalgamar?) falas distantes espacial e temporalmente. Próximas? Certamente.

Há uma economia que faz ecoar as obras de Samuel Beckett e Manoel de Barros. A “prosa de depois do fim do mundo”[1] e a documentação das insignificâncias[2]. Essa é a provocação desse espaço obra.

Muito do mesmo... Quase indefiníveis em suas particularidades, esses elementos de uma mesma coleção são vistos como um único elemento. Não há mais diferenciação. É quase uma nuvem, mas não transponível. A instalação tem uma tensão entre a eloquência barroca e o minimalismo daquilo que concentra muito de pouco.

Penso nos dois inspiradores dessa fala. Ambos escrevem de dentro de lugares plenos de informação para deles retirar o silêncio possível, o rumor das coisas.

É no método de suas escrituras que os autores interlocutores endereçam-se aos artistas: um modo de retirar, retirar, retirar, até chegar ao oco da vida. Achamo-nos com certo desconforto. No totalmente rotineiro, só percebemos estranhamento, nada muda, nada permanece no lugar, basta uma inversão na sintaxe, uma alteração nas proporções. Basta quase nada.

Tudo o que está exposto na sala silenciosa ecoa a potência do som: a cadeira vazia, o piano mudo, a profusão de vidros... Ao sermos acolhidos pelo trabalho, apresenta-se um vir a ser nunca alcançado: o devir rumor.

 

 

 

[1] Como Italo Calvino se refere á obra de Beckett.

 

[2] “As coisas que acontecem aqui, acontecem paradas”.

 

 

 

Texto publicado originalmente no catálogo da Ocupação Artística Espaço Entre, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília/DF, 2012-2013. 

rumor

Por Marília Panitz

 

2012