Que a modernidade é marcada pelo eclipse das certezas centenárias, dos pontos absolutos de referências, todo mundo sabe. Os dois últimos séculos foram movimentadíssimos. Acabamos com a família, com o amor romântico, com o sexo, com Deus e com o mocassim. Michel Foucault terminando os trabalhos chegou a afirmar que o homem se desvaneceria, como na orla do mar, um rosto de areia.

Ele tinha razão. Desde então, estamos na pior. Tentamos diversas muletas identitárias para alguma autonomia, com aquele gosto amargo de que a identidade só é praticável no fracasso e de que sem referencias a vida não tem sentido.

Não são poucos que têm quebrado a cabeça, entre outras coisas, com essa problemática. Cindy Shermam artificialmente descobrindo a si mesma na vida dos outros. Aquela senhora, Rachel Whiteread, tentando solidificar o vazio do mundo com concreto. Sophie Calle capturando o cotidiano, etc.

Todos falharam em algum grau. O fato é que criar artificialmente e constantemente um mundo ordenado e harmonioso parece implicar automaticamente na perda de si. Oh what a world!

E o trabalho de Ismael Monticelli?

Em um primeiro momento parece tratar-se de mais uma representação da dissolução da identidade. Fotografias que se evanescem em meio a placas de vidros cada vez mais espessas. Pessoas se dissolvendo em paisagens. Pequenas representações humanas (uma brincadeira com maquetes arquitetônicas) desaparecendo sob seu reflexo. Afinal, não é exatamente do que se trata a representação, as coisas em escala diminuta? Cada vez menores, e menores, e mais escura e mais escura, fading, até sumir?

No entanto, de uma forma interessante, a leitura que enfatiza a insuficiência, a diluição, o esgotamento do que somos ou fazemos no mundo, aquilo que de nós se apaga com a distância e nunca chega a ser, contém uma outra, que privilegia a dinâmica e o alcance impossível para nós daquilo que somos ou fazemos.

Conforme circundamos suas esculturas, a imagem do que está nas extremidades, seja uma pequena pessoa ou uma árvore, é multiplicada e projetada no jogo das lâminas, não apenas de fora para dentro, mas também de dentro para fora. Ou seja, o nosso lugar, e por que não, o que somos, ramifica-se ou está se dissolvendo no mundo dependendo do movimento do espectador.

Não deixa de ser uma investigação sobre o que é o homem e daquilo que de seu está no mundo. Mas na exposição “A paixão faz das pedras inertes, um drama” existe uma torção que é clara:  quando perguntamos pelo ‘que somos’ também estamos perguntando ‘como somos’.

O positivo está no negativo.

O desumano na humanização.

O desprender-se no construir-se.

Há esperança!

O fim do homem é o seu começo.

perspectivismo

Por Ângelo Brandelli Costa

 

2011