Ele me parecia sólido e quente, era uma ilha, perdida em meio à lagoa. Tinha as costas mergulhadas na água. Seu corpo boiava junto à superfície. O tecido de sua camisa e sua calça flutuava pelos lados. Das profundezas, vinha o ruído da correnteza gelada. Nenhum nadador alcançava aquela região intransitável, a ilha não estava assinalada nos mapas. Ela permanecia estendida e esperava; tinha de esperar. Uma vez insulada entre as correntes fluviais, nenhuma ilha pode deixar de ser ilha sem submergir.

Até que eu a alcancei.

Certa vez, era pelo amanhecer – o primeiro, o milésimo, não sabíamos, nem eu, nem a ilha… Os pensamentos – os meus, os da ilha – se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo amanhecer, no verão, a lagoa sussurrava mais claro – foi então que a ilha ouviu o resfolegar de um homem! Era eu. Eu nadava em direção a ela.

Perfile-se ilha! – ela instruiu a si mesma – Fique em posição, porto sem âncoras, sustente aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio, a insegurança das braçadas desse pobre nadador, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e, como um deus das rochas, acolha-o em terra firme.

Eu fui; primeiro com as mãos, tateei-lhe os ombros, o cabelo cerrado, agarrei-me à ilha. Apoiei os joelhos sobre seu peito. Primeiro um joelho, depois o outro. Firmei um pé, depois o outro. Ergui-me. Parado, rijo, sem titubear, olhando com ferocidade em torno, deixei-me ficar por ali um longo tempo. Eu admirava a paisagem. A ilha permanecia sólida, íntegra, O sol não lhe permitia avistar-me com precisão. Certamente a ilha tentava seguir-me em sonho por céus e horizontes; até que, bruscamente, saltei com os dois pés sobre seu ventre. A ilha estremeceu numa dor atroz sem compreender nada. Quem eu era? – perguntou-se a ilha – Uma criança? Um sonho? Um náufrago? Um suicida? Um colonizador? Um destruidor? (A ilha só não cogitou aquilo que eu de fato era: um exilado). Virou-se para ver-me. Uma ilha que dá voltas!

A ilha nem bem tinha se virado e já estava mergulhando. Afundamos os dois, eu e ela, o exilado e a ilha. Fomos tragados pela corrente, mal cheguei a me debater, tampouco ela, logo estávamos engasgados e imobilizados pela trama de algas e lodo que sempre haviam fitado a ilha tão pacificamente desde o fundo da lagoa turva e lamacenta. Não sei dizer se agimos juntos ou isoladamente. Nos debatemos, resfolegamos, quase perdemos o ar e o discernimento, eu e a ilha. Não sei dizer quanto tempo lutamos, os pensamentos seguiam em confusão e m círculos. Logo estávamos libertos, eu e a ilha. Nadamos. Alcançamos a superfície. Perdi de vista a ilha. Nunca soube se ela aportou, mas todos os dias volto em busca da mesma paisagem!

o exilado

Por Eduardo Veras

 

2014