Na maior parte do tempo nem pensamos no modo como o nosso corpo atua no mundo. Porém, ser e estar é uma única coisa, pois o estar no mundo é condição incontornável para o Ser. O Ser atua por imersão e ao nos movermos, deslocamos junto com nosso corpo o mundo inteiro. Se não somos conscientes disso é por observação de outras coisas em ação, como por exemplo o mar, ou a lua, que esse saber invade nosso corpo, não por consciência, mas por sensação apreendida. A repetição das ações cotidianas nos proporciona o aprendizado, mas também o hábito e, por consequência, a acomodação.
O artista é aquele que muitas vezes torna incômoda as relações pra lá de naturalizadas ou, ao articular deslocamentos de pontos de vista, nos coloca em outro lugar e, assim, faz com que enxerguemos a nós mesmos no mundo, como aquele ser de posição. Esse é um dos modos possíveis para se pensar “O entorno dá voltas ao redor”. Os artistas presentes nessa exposição atuam de modos distintos e semelhantes ao mesmo tempo. Com a câmera fixa ou em movimento, articulando objetos a distâncias, dimensões e possíveis deslocamentos, nos provocam diferentes sensações.
Adequações incômodas à geometria do espaço, com demasiada rigidez para um corpo que sente. Desdobramentos metafóricos a partir de objetos que sugerem significados para muito além de sua existência física. Jogos de proporções e desproporções, de encaixe e desencaixe, de força e de fragilidade. Deslocamentos que movem inclusive o passado, resgatando o ridículo na história, atualizada desta vez pela ironia, que impinge armadilhas capazes de vitimar os próprios corpos. A cada montagem e desmontagem, mesmo que seja por vias de um jogo mental, é de cognição que se trata. Um modo de ver a distância que nos liga à memória dos percursos percorridos.

 

 

 

Texto publicado originalmente no folder da exposição O entorno dá voltas ao redor, realizada na Casa Paralela, Pelotas/RS, 2012. 

o entorno é ainda o ser...

Por Adriane Hernandez

 

2012