Um dos eixos centrais da pesquisa de Ismael Monticelli é a elucidação e a compreensão da construção do campo visual e da representação: desde a constituição fisiológica e os mecanismos óticos que permitem a formação de uma imagem retiniana até a sua organização cognitiva em um campo uniforme e lógico regido por escalas e pela perspectiva. No entanto, as obras do artista, muitas vezes enigmáticas e opacas, parecem apontar as falhas e incompletudes da visão.
Ismael Monticelli encontrou no gênero da paisagem um terreno propício para abordar essas questões. Como em outros trabalhos, o artista elabora um guia em Manual de Instruções para Construir Paisagens em Casa, no qual literalmente elabora um método para discernir topografias e relevos em meio a elementos banais do cotidiano. O artista aplicou essas instruções em sua série Deserto dos Tártaros, na qual organizou e fotografou objetos de sua casa, desde sacolas de supermercado e farinha de trigo até o espelho do banheiro, ao mesmo tempo em que os movimentava ou manipulava a câmera. O resultado dessas experiências são imagens enigmáticas que evocam paisagens lunares e oníricas, veladas por uma densa e opaca neblina, sempre indiscerníveis.

 

 

 

Texto publicado originalmente no catálogo da exposição do 4º Prêmio EDP nas Artes, realizada no Instituto Tomie Ohtake, São Paulo/SP, 2014. 

falhas e incompletudes da visão

Por Olivia Ardui

 

2014