Desde os primeiros contatos que tivemos com Ismael, nos atraiu sua inteligência, lucidez e sensibilidade, fatores estes que aparecem agora em sua obra como comprova a presente mostra.

O texto de Luisa Duarte, curadora da mostra, destaca na obra do artista a delicadeza, ao mesmo tempo em que há a valorização das pequenas coisas e do cotidiano.

Eu diria que sim, é isto, mas também mais do que isto. Ismael demonstra conhecimento e mesmo uma filiação à recente história da arte (leia-se a partir da década de 1960), quando a arte se embebe mais de conceitos do que da sua configuração, com a primazia da ideia sobre a forma acabada. Estamos diante de uma espécie de reciclagem híbrida de obras conceituais dos anos 60/70.

À primeira vista, uma obra minimal. A sequência de vidros quadrados inseridos em bases deixa-nos desvendar, em um segundo olhar, a superfície da base, coberta de poeiras, todas com a mesma cor e aparência (numa referência à Land Art, desta vez transposta para uma pequena escala). A diferença entre a origem desses pós está identificada numa placa metálica inserida em cada uma das bases, onde são assinaladas as mais diversas procedências. Se essas referências são ficção ou realidade, não nos interessa, já que arte torna verdades mentiras e mentiras verdades. O que importa é que o artista nos chama a atenção para questões entre aparência e realidade, aliás, que permeiam toda a mostra, referindo-se aos momentos em que olho é insuficiente, questões tão inteligentemente levantadas, igualmente, por Cildo Meireles em Eureka/Blindhotland (1970–1975) e em outras de suas obras.
Seguindo o curso da exposição, vê-se uma série de fotografias PB, paisagens na névoa, mais provavelmente falsas paisagens, criadas a partir de pequenas coisas fotografadas (talvez de montes de pó ou farinhas sopradas) e fortemente ampliadas.

São similares as fotos recortadas em centenas de pedacinhos, peças de quebra-cabeças, que são disponibilizados aos espectadores para uma montagem quase impossível, devido à similitude das peças, todas em tons gris.

E há, também, a destacar os frascos de supostos remédios acompanhados dos seus respectivos receituários, que se referem a diversos autores e artistas, desde Walter Benjamin a Carlos Asp, que nos lembram um trabalho semelhante do artista Hélio Fervenza, feito há alguns anos.

Recomendamos a visita, a quem ainda não viu, da exposição de Ismael Monticelli, que nos oferece um bom tema para reflexão sobre as verdades e mentiras da arte e as diferenças entre aparência e realidade e a insuficiência do olhar em nossas formas de percepção.

 

 

 

Texto publicado originalmente no site da Fundação Vera Chaves Barcellos, novembro de 2014. 

delicadeza reciclada

Por Vera Chaves Barcellos

 

2014