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O desaparecimento da memória quando aparece mediado pela maculação da visão são evidentes nas obras de Ismael Monticelli (1987), p4 - Projeto Cisco (2011), p6 - Projeto Cisco (2011) e p21 - Projeto Cisco (2011), em que o artista adquire e se apropria de pinturas de paisagens de autores desconhecidos ou anônimos, enconbrindo-as parcialmente com uma camada de pó de cimento. O procedimento produz um obscurecimento e simultaneamente uma visibilização, demarcando uma zona nebulosa da visão que está relacionada diretamente à história da circulação da arte e com seu surgimento para a visibilidade pública, que inclui neste processo um possível reconhecimento, anonimato ou a obscuridade. Estas pinturas tematizam também, juntamente com outras obras, o que chamamos nesta Bienal de "pontos cegos", em sua relação metafórica com a cegueira institucional da imagem e, por consequência, da invisibilidade da arte e de artistas. A própria palavra "cisco" que dá nome à série refere-se a esta intromissão de um corpo estranho no olho que embaralha a visão. As suas fotografias de poeira Sem título I e Sem título V, da série O Deserto dos Tártaros (2012-2014), são realizadas com objetos e restos de materiais que o artista coletou em sua própria casa e com eles construiu paisagens fictícias e simuladas através da fotografia. Estas imagens invocam a força da natureza e suprimem a presença humana. Simultaneamente, todas são permeadas por uma claustrofobia que alude à impossibilidade de respirar. Em outra série de obras, em que estruturas realizadas com placas de vidros simulam formas arquitetônicas minimalistas, cobertas pela poeira, é invocada uma opacidade e uma cegueira do espaço que demarcam uma indisposição com o olhar. Limonara da série Mundo fulgurante, Liso do Sussuarão da série Mundo fulgurante e Monte Análogo da série Mundo Fulgurante (2014), são estruturas transparentes cujas camadas de vidro, inadvertidamente, lhes conferem mais opacidade do que deveriam possuir, uma vez que são ambientes construídos com vidro. Placas coladas em cada um dos suportes que sustentam estes objetos indicam o nome de um lugar ficcional que pode ser encontrado na literatura, como microcosmos de algum espaço convivial que exista como pura transparência, mas que por alguma razão se mostra opaco, obscurecido e sem vida pela poeira de casa coletada que o artista derrama sobre estas formas e lhes encobre a superfície. 

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Texto publicado originalmente no catálogo da 10ª Bienal do Mercosul, realizada em Porto Alegre/RS, 2015.

a poeira e o mundo dos objetos

Por Gaudêncio Fidelis

 

2016