
soft power
poder macio
2023
Instalação site-specific para a Sala Brasil da Embaixada do Brasil em Londres
[Site-specific installation for the Brazil Room, Embassy of Brazil, London]
Infláveis, sistema de ventilação, sistema sonoro
[Inflatables, ventilation system, sound system]
Dimensão variável
[Variable dimension]
Projeto não executado
[Unrealised project]
Soft Power, instalação site-specific para a Sala Brasil da Embaixada do Brasil em Londres, parte de um episódio específico da história cultural e diplomática brasileira para refletir sobre o uso da imagem e da cultura como instrumentos de poder simbólico nas relações internacionais. O trabalho retoma criticamente a Exhibition of Modern Brazilian Paintings, realizada em Londres, em 1944, na Royal Academy of Arts e na Whitechapel Gallery — a primeira grande apresentação coletiva da arte brasileira na Grã-Bretanha, organizada em meio à Segunda Guerra Mundial como parte de uma estratégia diplomática do governo de Getúlio Vargas. Naquele contexto, a arte foi mobilizada como linguagem capaz de projetar o Brasil como uma nação moderna, industrializada e culturalmente sofisticada, ao mesmo tempo em que arrecadava recursos para o esforço de guerra aliado.
Apesar de seu êxito, a mostra frustrou as expectativas do público britânico, que esperava encontrar uma arte mais “tropical”, exótica e sensual. Em vez disso, deparou-se com uma produção fortemente vinculada à tradição moderna europeia — “maçãs e peras”, frutas recorrentes nas naturezas-mortas de Paul Cézanne, onde se aguardavam “bananas e laranjas”. Esse descompasso entre expectativa e representação constitui o ponto de partida conceitual de Soft Power.
A instalação apresenta uma série de infláveis monumentais de frutas tropicais, acompanhados pela música “The Lady in the Tutti-Frutti Hat”, imortalizada por Carmen Miranda no filme The Gang’s All Here (1943). À primeira vista, o trabalho parece corresponder integralmente ao imaginário tropical ainda projetado sobre o Brasil, operando em contraste deliberado com a arquitetura histórica que ocupa, datada de 1906. O excesso cromático, a escala inflada e a materialidade macia dos objetos produzem uma imagem sedutora, imediatamente reconhecível e facilmente consumível.
No entanto, essa adesão ao estereótipo é adotada como estratégia. Ao evocar a performance de Carmen Miranda, a instalação ativa o humor e a ironia já presentes na própria cena cinematográfica: a exuberância tropical se transforma em coreografia quase absurda, na qual a alegria aparece como uma construção performativa. O que se apresenta como uma imagem dócil, festiva e pacífica revela-se, assim, como um dispositivo ambíguo.
Nesse sentido, Soft Power dialoga com o conceito formulado por Joseph Nye para descrever formas de influência baseadas na atração cultural e simbólica, em oposição ao poder militar ou econômico. A instalação sugere que a imagem tropical do Brasil — historicamente promovida como emblema nacional — pode operar como uma máscara estratégica: uma superfície de sedução que atravessa fronteiras, desarma resistências e, ao mesmo tempo, encobre conflitos e assimetrias.
Ao levar esse imaginário ao limite, Soft Power não propõe sua celebração nem sua simples denúncia. A instalação expõe o caráter performativo da diplomacia cultural e evidencia que aquilo que parece decorativo, leve ou superficial pode constituir um campo sofisticado de disputa simbólica, no qual a imagem não apenas representa, mas age.
Soft Power is a site-specific installation for the Brazil Room at the Embassy of Brazil in London. It draws on a specific episode in Brazilian cultural and diplomatic history to reflect on the use of image and culture as instruments of symbolic power in international relations. The work critically revisits the Exhibition of Modern Brazilian Paintings, held in London in 1944 at the Royal Academy of Arts and the Whitechapel Gallery—the first major collective presentation of Brazilian art in Great Britain, organised during the Second World War as part of a diplomatic strategy pursued by the government of Getúlio Vargas. In that context, art was mobilised as a language capable of projecting Brazil as a modern, industrialised and culturally sophisticated nation, while also raising funds for the Allied war effort.
Despite its institutional and public success, the exhibition frustrated the expectations of British audiences, who anticipated a more “tropical”, exotic and sensual art. Instead, they encountered a production closely aligned with the European modernist tradition—“apples and pears”, fruits frequently found in Paul Cézanne’s still lifes, where “bananas and oranges” had been expected. This mismatch between expectation and representation forms the conceptual point of departure for Soft Power.
The installation presents a series of monumental inflatable tropical fruits, accompanied by the song “The Lady in the Tutti-Frutti Hat”, immortalised by Carmen Miranda in the film The Gang’s All Here (1943). At first glance, the work appears to fully embrace the tropical imaginary still projected onto Brazil, operating in deliberate contrast with the historic architecture it inhabits, dating from 1906. Chromatic excess, inflated scale and soft materiality produce a seductive image that is immediately recognisable and easily consumable.
This adherence to stereotype, however, is adopted as a strategy. By evoking Carmen Miranda’s performance, the installation activates the humour and irony embedded in the cinematic scene itself: tropical exuberance is transformed into an almost absurd choreography, in which joy emerges as a performative construction. What initially appears as a docile, festive and peaceful image thus reveals itself as an ambiguous device.
In this sense, Soft Power engages with the concept formulated by Joseph Nye to describe forms of influence based on cultural and symbolic attraction, in contrast to military or economic power. The installation suggests that Brazil’s tropical image—historically promoted as a national emblem—can function as a strategic mask: a surface of seduction that crosses borders, disarms resistance and, at the same time, conceals conflict and asymmetry.
By pushing this imaginary to its limits, Soft Power neither celebrates nor simply denounces it. Instead, the installation exposes the performative nature of cultural diplomacy, demonstrating that what appears decorative, light or superficial can constitute a sophisticated field of symbolic dispute, in which images do not merely represent, but act.





