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o deserto dos tártaros

the desert of tartars

2012-14

Fotografia impressa sobre papel Moab Slickrock Metallic Silver
[Photograph printed on paper Moab Slickrock Metallic Silver]
100 x 150 cm [cada/each]

Em O Deserto dos Tártaros, Ismael Monticelli utiliza objetos e materiais comuns do ambiente doméstico — como farinha de trigo, espelhos de banheiro, fragmentos de plástico e sacolas de supermercado — organizando-os sobre uma mesa e fotografando-os por meio de procedimentos que incluem a movimentação de plástico-bolha diante da lente da câmera, com o obturador aberto por longos períodos de exposição. Desenvolvida meticulosamente ao longo de meses em sua própria casa, a série explora o potencial naturalista da imagem fotográfica para criar engenhosas miniaturas de paisagens.

 

As pequenas paisagens naturais, inventadas em microcenários domésticos, transformam-se em espaços vastos e envolventes. A alusão à obra homônima de O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, sugere uma leitura na qual a representação da natureza não apenas desafia a vontade humana, mas também se vale da fotografia como um jogo verossímil e eficaz para inventar lugares. Impressas em grandes dimensões, as imagens tornam-se cenários lunares, nevados, marítimos e distantes, evocando geografias desprovidas da presença humana e dominadas pela força soberana da natureza.

 

Monticelli comenta suas explorações poéticas do espaço doméstico e o uso de materiais cotidianos: “Lembro que, nesse momento, comecei a me interessar por quanto podemos transfigurar imaginariamente uma coisa em outra, simplesmente com a observação prolongada. Isso começou a se tornar uma questão para mim”. Essa reflexão dialoga com a ideia de Jacques Rancière de que “precisamos ficcionar o real para pensá-lo”. Reimaginar o que parece evidente é essencial para compreendê-lo, usá-lo e politizá-lo, o que implica desconstruir o mito da clareza em favor de uma experiência mais opaca do mundo, mediada pelo outro e pelas relações interpessoais.

 

Visto à luz do presente, o trabalho parece antecipar e refletir uma natureza em revolta, em diálogo com imagens contemporâneas de tempestades e catástrofes naturais agravadas pela crise climática global.

In The Desert of Tartars, Ismael Monticelli uses common objects and materials from a domestic environment, such as wheat flour, bathroom mirrors, plastic fragments, and grocery bags, arranging them on a table and photographing them with techniques that include moving bubble wrap in front of the camera lens with the shutter open for extended exposure times. This series of photographs, meticulously developed over months in his own home, explores the naturalistic potential of photographic imagery to create ingenious miniatures of landscapes.

 

The small, natural landscapes invented in domestic micro-scenarios are transformed into vast and immersive spaces. The reference to Dino Buzzati’s eponymous work suggests a reading where the representation of nature not only challenges human will but also employs photography as a plausible and efficient game to invent places. The landscapes, printed on a large scale, become lunar, snowy, maritime, and distant settings, evoking geographies devoid of human presence and dominated by the sovereign force of nature.

 

Monticelli comments on his poetic explorations of domestic space and the use of everyday materials: "I remember that, at that moment, I started to be interested in how much we can imaginatively transfigure one thing into another, simply through prolonged observation. This began to become a question for me." This reflection dialogues with Jacques Rancière’s idea that "we need to fictionalize the real in order to think it." Reimagining what is seemingly evident is essential for understanding, using, and politicizing it. This requires deconstructing the myth of clarity in favor of a more opaque experience of the world, mediated by others and interpersonal relationships.

 

Viewed in the light of the present, this work seems to anticipate and reflect the nature in revolt that we currently witness, relating to images of storms and natural disasters exacerbated by the global climate crisis.

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