novo mundo/ new world/

 

2019/

15 cartazes sobre parede pintada; móveis encontrados; ferramentas e materiais que pertenciam a Joseph McNally, Singapura, década de 1990; 28 esculturas [1974-2002] de Joseph McNally, realizadas na LASALLE College of the Arts, Coleção do Institute of Contemporary Arts Singapore/ 15 posters on painted wall; furniture found; tools and materials belonging to Joseph McNally, Singapore, 1990s; 28 sculptures [1974-2002] by Joseph McNally, held at LASALLE College of the Arts, Institute of Contemporary Arts Singapore Collection/

dimensão variável/ variable dimension/

*projeto realizado durante uma residência artística no Institute of Contemporary Arts, Singapura, 2019, financiado pelo LASALLE College of the Arts/ work done during an artistic residency at the Institute of Contemporary Arts, Singapore, 2019, financed by LASALLE College of the Arts/

O ponto de partida do projeto Novo Mundo foram obras, objetos, ferramentas e restos de materiais de Joseph McNally (Irlanda, 1923 – Singapura, 2002) pertencentes à coleção do Institute of Contemporary Arts de Singapura. 

McNally foi um padre católico da ordem dos irmãos lasallistas e uma figura pública muito atuante em Singapura. Além de professor e artista, ele fundou a LASALLE College of the Arts, primeira escola superior de arte da cidade-estado, atuando ativamente na criação de uma cena artística efervescente e diversa. Apesar de McNally sempre ter se colocado primeiramente como um educador e depois como um artista, não significa que a sua produção artística deva ser colocada em segundo plano. A profusão de textos existentes sobre sua obra detém-se principalmente em aspectos biográficos de sua persona pública.

É possível identificar certo anacronismo no tipo de escultura produzida pelo artista. Formas figuradas estilizadas que tendem à abstração, realizadas entre a década de 1970 até os anos 2000, dialogam mais com certo tipo de produção escultórica moderna que almejava reconectar a arte com certo universo primitivista. A temática que McNally explorava em seus trabalhos referia-se ao imaginário dos povos Celtas assim como questões da tradição milenar budista.

Joseph McNally chegou a Singapura em 20 de outubro de 1946 – momento em que a localidade ainda era uma colônia inglesa – estabelecendo-se ali por cinco anos. Somente em 1973, McNally retornou para estabelecer moradia permanente, encontrando uma conjuntura bastante distinta daquela que havia vislumbrado há 20 anos. 

Analisando a produção artística de McNally em contraposição com esse fato, tornou-se impossível não vê-la como o resultado da sua própria experiência: Joseph, primeiramente, confrontou uma Singapura colonial, rudimentar e extremamente empobrecida, permeada por uma paisagem urbana de traços asiáticos misturada a uma tradição arquitetônica europeia; e, no segundo momento, Joseph se deparou com uma Singapura elevada à condição de cidade-estado, independente e em franco desenvolvimento, uma paisagem urbana completamente transformada, que procurava apagar qualquer indício visual do passado colonial.

Algumas questões redirecionaram o rumo do projeto: será que a procura incessante de McNally por certo tipo de ancestralidade – tanto pessoal quanto do sudeste asiático – não seria uma resposta silenciosa às profundas modificações da paisagem urbana do contexto em que estava vivendo? Será que essa procura não estava tentando manter intacto e transmitir um imaginário singapurenho em vias de ser apagado? Será que sua obra não pode ser entendida como um relato enigmático de uma Singapura primitiva, antes mesmo dela ter se tornado uma colônia britânica?

O desenvolvimento de um corpo de trabalhos “primitivista” e anacrônico tendo como pano de fundo uma cidade completamente futurista e hightech, reorientou conceitualmente a pesquisa para a instalação Novo Mundo.

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O Housing and Development Board foi o órgão do Ministry of National Development de Singapura responsável pela modernização estrutural do país. À HDB é creditada a erradicação das favelas na década de 1960, reassentando a população de Singapura em habitações sociais públicas de baixo custo.

Uma das áreas planejadas e construídas na década de 1960 pela HDB foi Toa Payoh, localizada na parte norte da região central de Singapura. Em uma paisagem praticamente virgem e intocada, um dos maiores complexos habitacionais da cidade-estado foi erguido (como os projetados e construídos em Brasília por Oscar Niemeyer).

Mesmo com a completa desfiguração da paisagem natural para a construção de Toa Payoh, um templo budista do período colonial, Poh Tiong Keng 忠 Pu (Pu Zhong Gong) - popularmente conhecido como “Templo afundado” - foi mantido. Em alguns registros fotográficos é possível perceber claramente o contraste do templo (com linhas, formas e símbolos da tradição budista) em oposição às linhas e ângulos retos do bloco de apartamentos 33 Lorong 6 Toa Payoh. O Templo foi demolido em 1977. O bloco 33 foi demolido em 2014.

A fotografia do Templo em primeiro plano, com a imponente habitação social modernista ao seu fundo, se tornou uma síntese conceitual e visual para a instalação Novo Mundo.

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A modernização de Singapura, iniciada na década de 1960, é fruto de um projeto radical de reorganização e controle, tanto da vida pública quanto da vida privada. Uma das iniciativas desenvolvidas pelo governo foi a criação de um órgão dedicado exclusivamente ao incentivo da alta produtividade dos cidadãos singapurianos. O National Productivity Board desenvolve, desde a década de 1970, campanhas publicitárias (de um modo corporativista) que “estimulam” formas, pensamentos e comportamentos proativos para o melhor rendimento dos cidadãos em ambientes profissionais e pessoais. Este é um dos muitos exemplos de práticas adotadas em Singapura que parecem ter saído das páginas do livro Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley.

Curiosamente, Singapura é citada no começo da novela de Huxley como umas das principais potências produtivas e reprodutivas do “Mundo Novo”. A menção a Singapura talvez tenha se dado pela longa viagem que o escritor realizou pelo sudeste asiático na década de 1920. Algumas pesquisas recentes evidenciam que durante uma viagem de barco entre Singapura e as Filipinas, em 1925, Huxley leu a autobiografia de Henry Ford My life and work. Huxley acabou transformando Ford no “Deus” de Admirável Mundo Novo.

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Mesas de desenho, quadros negros, estantes de livros e outros itens que estavam abandonados nos porões da LASALLE College of the Arts estruturam a composição do núcleo central da instalação Novo Mundo. Sobre esse mobiliário museológico improvisado, encontram-se posicionadas obras, objetos, ferramentas e restos de materiais de Joseph McNally. Nas paredes foram pintadas listras horizontais. Sobre elas, estão colocados 15 cartazes elaborados a partir de trechos retirados do livro Admirável Mundo Novo de Aldoux Huxley. A composição de cada um deles se baseou em cartazes que foram desenvolvidos pelo National Productivity Board de Singapura na década de 1980.

The starting point for the New World project was the works, objects, tools and remains of materials of Joseph McNally (Ireland, 1923 - Singapore, 2002) belonging to the collection of the Institute of Contemporary Arts of Singapore.

McNally was a Catholic priest of the order of the Lasallian brothers and a very active public figure in Singapore. In addition to being a teacher and artist, he founded LASALLE College of the Arts, the city's first art college, actively working to create a vibrant and diverse art scene. Although McNally have always placed first as an educator and then as a photographer does not mean that his artistic production is to be placed in the background. The profusion of existing texts on his work is mainly focused on biographical aspects of his public persona.

It is possible to identify certain anachronism in the type of sculpture produced by the artist. Stylized figurative forms that tend to abstraction, carried out between the 1970s and the 2000s, dialogue more with a certain type of modern sculptural production that aimed to reconnect art with a certain primitivist universe. The theme that McNally explored in his works referred to the imagination of the Celts as well as issues of Buddhist ancient tradition.

Joseph McNally arrived in Singapore on October 20, 1946 - a time when the town was still an English colony - settling there for five years. Only in 1973 did McNally return to establish permanent housing, finding a situation quite different from the one he had glimpsed 20 years ago. 

Analyzing McNally's artistic production in opposition to this fact, it became impossible not to see him as a result of his own experience: Joseph confronted for the first time a colonial, rudimentary and extremely impoverished Singapore, but permeated by an urban landscape of Asian traits mixed with a European architectural tradition; and in the second moment, Joseph found a Singapore elevated to the condition of an independent and rapidly developing city-state, a completely transformed urban landscape that sought to erase any visual clue of the colonial past.

Some questions redirected the course of the project: would McNally's relentless pursuit of a certain kind of primitivism - both personal and Southeast Asian - not be a silent response to the profound modifications of the urban landscape from the context in which he was perceiving? Was this demand not trying to keep intact and convey a Singaporean imaginary in the process of being erased? Could it be that his work can not be understood as an enigmatic account of a primitive Singapore before it even became a British colony?

The development of a "primitivist" and anachronistic body of work against a completely futuristic and hightech city, has conceptually reoriented research for the New World installation.

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The Housing and Development Board was the organ of the Ministry of National Development of Singapore responsible for the structural modernization of the country. HDB is credited with the eradication of favelas in the 1960s, resettleing the population of Singapore in low-cost public housing.

One of the areas planned and built in the 1960s by HDB was Toa Payoh, located in the northern part of central Singapore. In a virtually virgin and pristine landscape, one of the largest housing estates in the city-state was erected (such as those designed and built in Brasilia by Oscar Niemeyer).

Even with the complete disfigurement of the natural landscape for the construction of Toa Payoh, a Buddhist temple of the colonial period, Poh Tiong Keng 忠 Pu (Pu Zhong Gong) - popularly known as "Sunken Temple" - was maintained. In some photographic records it is possible to clearly perceive the contrast of the temple (with lines, shapes, and symbols of the Buddhist tradition) as opposed to the straight lines and angles of the apartment block 33 Lorong 6 Toa Payoh. The Temple was demolished in 1977. Block 33 was demolished in 2014.

The photograph of the Temple in the foreground, with the imposing modernist social housing to its background, has become a conceptual and visual synthesis for the New World installation.

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The modernization of Singapore, begun in the 1960s, is the result of a radical project of reorganization and control of both public and private life. One of the initiatives developed by the government was the creation of a body dedicated exclusively to encouraging the high productivity of Singaporeans. Since the 1970s, the National Productivity Board has developed advertising campaigns (in a corporative way) that "stimulate" proactive ways, thoughts and behaviors for the best income of citizens in professional and personal settings. This is one of many examples of practices adopted in Singapore that appear to have exited the pages of Aldous Huxley's Brave New World (1932).

Curiously, Singapore is quoted at the beginning of Huxley's novel as one of the main productive and reproductive powers of the "New World." The mention of Singapore may have been due to his long voyage through Southeast Asia in the 1920s. Recent research shows that during a boat trip between Singapore and the Philippines in 1925, Huxley read the autobiography of Henry Ford My life and work. Huxley eventually turned Ford into the "God" of Brave New World.

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Drawing tables, blackboards, bookshelves and other items that were abandoned in the basements of the LASALLE College of the Arts structure the composition of the core of the New World installation. Joseph McNally's works, objects, tools and remains of materials are positioned on this improvised museum furniture. On the walls were painted horizontal stripes. Over them are placed 15 posters drawn from excerpts taken from the book Brave New World by Aldoux Huxley. The composition of each of them was based on posters that were developed by the National Productivity Board of Singapore in the 1980s.