
fantasia neocolonial
neo-colonial fantasy
2024
Instalação site-specific na Capela do Morumbi, São Paulo
[Site-specific installation at Morumbi Chapel, São Paulo, Brazil]
Neon LED, estruturas metálicas autoportantes pintadas, sistema elétrico
[Neon LED, painted self-supporting metal structures, electrical system]
Dimensão variável
[Variable dimension]
Projeto não executado
[Unrealised project]
A Capela do Morumbi é um edifício atravessado por incertezas. As ruínas que lhe deram origem, datadas do século XIX, já foram interpretadas como uma capela dedicada a São Sebastião dos Escravos, como espaço funerário da antiga fazenda ou mesmo como restos de um paiol. A ausência de documentação conclusiva impede qualquer leitura estável de sua origem. Nos anos 1940, no entanto, essas ruínas passam a desempenhar um novo papel simbólico quando o arquiteto Gregori Warchavchik é contratado para restaurá-las, a pedido da Companhia Imobiliária Morumby, como parte do projeto de valorização de um bairro planejado para a elite paulistana. Rebatizada nos materiais publicitários como “Capela Jesuítica”, a construção passa a operar menos como vestígio histórico e mais como imagem construída de tradição, nobreza e permanência.
A intervenção de Warchavchik ocupa um lugar ambíguo em sua trajetória. Reconhecido como pioneiro da arquitetura moderna no Brasil e crítico da reprodução de estilos históricos, o arquiteto realiza aqui uma restauração que se apropria deliberadamente de uma linguagem colonial — ainda que as ruínas originais não pertençam a esse período. O resultado é um conjunto arquitetônico compósito, ao mesmo tempo reconstrução e invenção, no qual convivem taipa de pilão, alvenaria moderna e um vocabulário formal neocolonial. Alguns historiadores descrevem essa operação como uma “fantasia neocolonial”, marcada menos pela fidelidade histórica do que pela eficácia simbólica e comunicacional da forma.
Esse caráter estratificado foi definido por Aziz Ab’Saber como uma forma de heterocronia: a coexistência de múltiplas temporalidades num mesmo corpo arquitetônico. A capela reúne ruína, reconstrução moderna e imaginação colonial em uma configuração de difícil classificação — um edifício que não se resolve plenamente nem como monumento histórico, nem como obra modernista, nem como simples simulacro, mas como um palimpsesto arquitetônico, no qual tempos e regimes estéticos permanecem em fricção.
É a partir dessa condição instável que o projeto Fantasia Neocolonial se insere. Concebida como uma instalação site-specific, a obra intensifica a heterocronia da capela ao acrescentar uma nova camada temporal e simbólica. No interior do edifício, estruturas de neon LED reinterpretam elementos recorrentes da arquitetura religiosa colonial e neocolonial — altares, retábulos, colunas, frontões — apresentando-os de modo fragmentado, deslocado e propositalmente desconjuntado. Sustentados por estruturas metálicas autoportantes na cor da taipa, esses elementos luminosos instauram uma cena de instabilidade, na qual a ordem arquitetônica parece permanentemente à beira do colapso.
A instalação assume a capela como um corpo impuro, constituído por fragmentos de épocas distintas — um verdadeiro “Frankenstein” arquitetônico. Essa figura dialoga com a etimologia da palavra monstro, derivada do latim monstrum, associada não apenas ao desvio ou à anomalia, mas também ao prodígio e ao aviso (monere: anunciar, prever). Nesse sentido, a capela-monstro não é um erro a ser corrigido, mas um sinal: algo que torna visíveis tensões históricas, ideológicas e estéticas ainda em operação.
Ao revisitar criticamente a restauração de Warchavchik, Fantasia Neocolonial sugere que aquela intervenção dos anos 1940 já antecipava questões que se tornariam centrais no pós-modernismo arquitetônico, como a reapropriação de estilos históricos, o uso consciente de signos e a recusa de narrativas formais únicas. A proposta acrescenta, assim, mais uma temporalidade à Capela do Morumbi — conectando o passado colonial inventado, a modernidade brasileira e uma sensibilidade contemporânea marcada pela citação, pela ironia e pela instabilidade dos sentidos.
Nesse ponto, o projeto dialoga diretamente com as reflexões formuladas por Robert Venturi, Denise Scott Brown e Steven Izenour em Aprendendo com Las Vegas (1972), livro seminal para a crítica do modernismo tardio. Ao compreender a arquitetura como sistema de signos, ornamentos e referências culturais — e não apenas como forma funcional e abstrata —, os autores propõem uma leitura da paisagem construída baseada na complexidade, na ambiguidade e na coexistência de linguagens. O próprio termo Fantasia Neocolonial poderia se alinhar aos estilos inusitados listados no livro, como “Marroquino de Miami”, “havaiano bauhaus”, “arquitetura moderna orgásmica de Hollywood” ou “mourisco de Niemeyer” — denominações que evidenciam apropriações deliberadas e transformações livres de estilos do passado. A instalação aproxima a Capela do Morumbi dessa lógica pós-moderna, na qual a mistura de referências, o pastiche e a comunicação simbólica não são falhas, mas estratégias conscientes.
Longe de buscar uma síntese ou uma leitura conciliadora, a instalação aposta na permanência do conflito. A Capela do Morumbi emerge aqui como um edifício irredutível: simultaneamente ruína, fantasia, monumento e advertência.
The Morumbi Chapel is a building shaped by uncertainty. The ruins from which it originated, dating from the nineteenth century, have been variously interpreted as a chapel dedicated to Saint Sebastian of the Enslaved, as a funerary space belonging to the former estate, or even as the remains of a granary. The absence of conclusive documentation prevents any stable reading of its origins. In the 1940s, however, these ruins acquired a new symbolic function when the architect Gregori Warchavchik was commissioned to restore them by the Companhia Imobiliária Morumby, as part of a real-estate development project aimed at enhancing a neighbourhood planned for São Paulo’s elite. Renamed in promotional materials as the “Jesuit Chapel,” the building began to operate less as a historical remnant and more as a constructed image of tradition, nobility, and permanence.
Warchavchik’s intervention occupies an ambiguous position within his career. Widely recognised as a pioneer of modern architecture in Brazil and a critic of the reproduction of historical styles, the architect here undertakes a restoration that deliberately appropriates a colonial architectural language—even though the original ruins do not belong to that period. The result is a composite architectural ensemble, simultaneously reconstruction and invention, in which rammed earth, modern masonry, and a neo-colonial formal vocabulary coexist. Some historians have described this operation as a “neo-colonial fantasy,” marked less by historical accuracy than by the symbolic and communicative efficacy of its form.
This stratified character was defined by Aziz Ab’Saber as a form of heterochrony: the coexistence of multiple temporalities within a single architectural body. The chapel brings together ruin, modern reconstruction, and colonial imagination in a configuration that resists clear classification—an edifice that cannot be fully resolved as a historical monument, a modernist work, or a mere simulacrum, but rather as an architectural palimpsest, in which different temporal regimes and aesthetic logics remain in constant friction.
It is from this unstable condition that the project Neo-Colonial Fantasy emerges. Conceived as a site-specific installation, the work intensifies the chapel’s heterochrony by adding a further temporal and symbolic layer. Inside the building, LED neon structures reinterpret recurring elements of colonial and neo-colonial religious architecture—altars, retables, columns, pediments—presenting them in a fragmented, displaced, and deliberately disjointed manner. Supported by self-standing metal structures painted in the colour of rammed earth, these luminous elements establish a scene of instability in which architectural order appears perpetually on the verge of collapse.
The installation treats the chapel as an impure body, composed of fragments from distinct historical periods—a true architectural “Frankenstein.” This figure resonates with the etymology of the word monster, derived from the Latin monstrum, associated not only with deviation or anomaly but also with prodigy and warning (monere: to announce, to foretell). In this sense, the chapel-as-monster is not an error to be corrected but a sign: something that renders visible historical, ideological, and aesthetic tensions that remain active.
By critically revisiting Warchavchik’s restoration, Neo-Colonial Fantasy suggests that the architect’s intervention in the 1940s already anticipated questions that would later become central to postmodern architecture, such as the reappropriation of historical styles, the conscious use of signs, and the rejection of singular formal narratives. The project thus adds yet another temporality to the Morumbi Chapel—linking an invented colonial past, Brazilian modernity, and a contemporary sensibility marked by citation, irony, and the instability of meaning.
At this point, the project enters into direct dialogue with the reflections formulated by Robert Venturi, Denise Scott Brown, and Steven Izenour in Learning from Las Vegas (1972), a foundational text in the critique of late modernism. By understanding architecture as a system of signs, ornaments, and cultural references—rather than solely as functional and abstract form—the authors propose a reading of the built environment grounded in complexity, ambiguity, and the coexistence of languages. The very term Neo-Colonial Fantasy could be aligned with the idiosyncratic styles listed in the book, such as “Miami Moroccan,” “Bauhaus Hawaiian,” “Hollywood’s orgasmic modern architecture,” or “Niemeyer Moorish”—labels that foreground deliberate appropriations and free transformations of historical styles. The installation draws the Morumbi Chapel into this postmodern logic, in which the mixing of references, pastiche, and symbolic communication are not flaws but conscious strategies.
Rather than seeking synthesis or reconciliation, the installation insists on the persistence of conflict. The Morumbi Chapel emerges here as an irreducible building: at once ruin, fantasy, monument, and warning.





