corpo político/ politic body/

 

2019/

camisetas de algodão estampadas e cabides/ printed cotton t-shirts and hangers/

dimensão variável/ variable dimension/ 

Na década de 1970, começaram a aparecer as primeiras camisetas que estampavam palavras e frases de cunho politicamente engajado. No entanto, foi a estilista inglesa Katharine Hamnett que, no começo da década de 1980, estabeleceu definitivamente a camiseta como espaço de manifestação. Suas primeiras coleções traziam t-shirts brancas onde se enxergava, à distância, palavras e frases escritas em preto, no modo imperativo: “vote taticamente”, “salve a vida sobre a terra”, “pare e pense”. O acontecimento que popularizou as camisetas-declaração foi o encontro de Katharine com Margaret Thatcher, em 1984, quando a estilista abriu o zíper de seu casaco para exibir à primeira ministra uma camiseta com uma declaração contra a política nuclear adotada pelo governo do Reino Unido.

No Brasil, foi durante as Diretas Já em 1984 que a camiseta-manifesto se estabeleceu definitivamente como uma forma de posicionamento público. Milhares de pessoas saíram às ruas vestindo camisetas que requisitavam o retorno imediato de eleições diretas para a presidência da República, depois de 20 anos de regime militar. Em 12 de janeiro de 1984, Curitiba foi o palco do teste de apoio popular à Campanha pelas Diretas. Um partido político chegou a distribuir dois milhões e meio de material panfletário, 15 mil cartazes, 30 mil cédulas simbólicas e três mil camisetas pró-Diretas Já.

O projeto Corpo político teve como ponto de partida a criação de um arquivo de camisetas-manifesto – tanto as que foram produzidas recentemente, como as que foram criadas em décadas anteriores. As camisetas mapeadas carregam palavras e frases que expressam desde pensamentos coletivos, públicos e críticos – “Museu é do povo”, “Eleja um palhaço, espere um circo”, “Liberte todos os prisioneiros políticos” –, até questões individuais, subjetivas e irônicas – “Queria estar dormindo”, “Eu sobrevivi a mais uma reunião que deveria ter sido um e-mail”, “Satanás é meu sugar daddy” [a pesquisa completa pode ser conferida na galeria de imagens abaixo].

A partir da observação dos diversos modos de posicionamento que essas camisetas carregam, foram elaboradas 10 camisetas-manifesto. Para isso, foram pesquisadas entrevistas com 10 artistas brasileiros cujas obras são, frequentemente, enquadradas sob o rótulo “arte-política”: Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Artur Barrio, Augusto de Campos, Bené Fonteles, Claudia Andujar, Cildo Meireles, Paulo Bruscky, Regina Silveira e Regina Vater. Além disto, os artistas elencados têm em comum o fato de terem atravessado a ditadura militar brasileira, enfrentando as limitações impostas pela censura ao criar outras formas, meios e espaços artísticos para desenvolver um corpo de trabalhos, sem alienar-se da conjuntura política do momento. Para elaboração das camisetas da série Corpo político foram extraídos pensamentos sobre arte-política que estão presentes nas narrativas desses artistas.

In the 1970s, the first T-shirts stamped with politically engaged words and phrases began to appear. However, it was British fashion designer Katharine Hamnett who, in the early 1980s, definitely established the T-shirt as a space for demonstration. His first collections had white t-shirts where you could see words and phrases written in black from the distance, in the imperative mode: “vote tactically”, “save life on earth”, “stop and think”. The event that popularized the statement t-shirts was Katharine's meeting with Margaret Thatcher in 1984, when the designer unzipped her coat to show the prime minister a t-shirt with a statement against the UK government's nuclear policy.

In Brazil, it was during the "Diretas Já" in 1984 that the manifesto shirt was definitely established as a form of public positioning. Thousands of people took to the streets wearing T-shirts that called for the immediate return of direct presidential elections after 20 years of military rule. On January 12, 1984, the city of Curitiba was the scene of the popular support test for the "Diretas" Campaign. One political party even distributed two and a half million pamphleteer material, 15,000 posters, 30,000 symbolic notes and 3,000 pro-"Diretas já" T-shirts.

The Body Politic project had as its starting point the creation of an archive of manifesto shirts - both recently produced and those created in previous decades. The mapped T-shirts carry words and phrases that express from collective, public and critical thoughts - “Museum belongs to the people”, “Elect a clown, expect a circus”, “Free all political prisoners” - even individual, subjective and ironic issues - “I wish I was sleeping”, “I survived another meeting that should have been an email”, “Satan is my sugar daddy” [the full research can be seen in the image gallery below].

From the observation of the various positioning modes that these t-shirts carry, 10 manifesto t-shirts were elaborated. For this, interviews were searched with 10 Brazilian artists whose works are often framed under the label “art-politics”: Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Artur Barrio, Augusto de Campos, Bené Fonteles, Claudia Andujar, Cildo Meireles, Paulo Bruscky, Regina Silveira and Regina Vater. In addition, the listed artists have in common the fact that they crossed the Brazilian military dictatorship, facing the limitations imposed by censorship when creating other artistic forms, means and spaces to develop a body of works, without alienating themselves from the political conjuncture of the moment. For the elaboration of the t-shirts of the series Body politic thoughts were extracted on art-politics that are present in the narratives of these artists.