corpo estranho/ strange body/

 

2020/

pinturas revestidas com camadas de tule e filó, textos recortados sobre folhas de acetato e

fotografias impressas sobre papel Hahnemuhle/ paintings covered with tulle layers, phrases cut out

on acetate sheets and photographs printed on Hahnemuhle paper/

400 x 1040 cm/

O trabalho “Corpo estranho” partiu de uma história pessoal.

***

Meu avô, descendente de imigrantes italianos e morador de um pequeno município do interior do Rio Grande do Sul, foi acusado de ter matado seu primo nos anos 1960, no meio de uma floresta. Durante um ano, ele foi visitado constantemente por policiais, com o intuito de arrancar a confissão do crime. As visitas sempre envolviam algum tipo de violência física e/ou tortura. Depois de um ano, o caso foi encerrado por falta de provas, permanecendo sem solução. Logo após, meu avô foi, ano após ano, perdendo a visão e a audição.

***

Vinte e três pinturas de paisagens, de autores desconhecidos e de épocas distintas, colecionadas ao longo de dez anos, foram revestidas por camadas de filó e tule preto, de modo a obscurecer a imagem pintada. As pinturas foram colocadas lado a lado, unidas pela linha do horizonte de cada composição – formando uma espécie de paisagem única. Junto a isto, foram colocadas sete fotografias extraídas de um dos raros registros em vídeo que tenho de meu avô, gravados um pouco antes da sua morte. As fotografias são frames sequenciais. Cada fotografia marca o começo e o fim de uma das sete partes de uma narrativa, que foram recortadas sobre folhas de acetato e distribuídas ao longo da linha do horizonte.

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As sete partes da narrativa seguem abaixo:

1.

Essa é uma história que meu avô contou para o meu pai e que meu pai contou para mim.

Mata virgem.

Uma floresta dramática, extraordinária, um espetáculo capaz de ultrapassar o conhecimento e a intelecção humana.

Essa floresta fica em uma zona montanhosa. Para acessá-la, só através de uma longa estrada de chão-batido. O caminho é salpicado por algumas casas. Todas casas têm em comum o fato de serem habitadas por descendentes de imigrantes.

Os moradores falam entre si em uma língua estranha. Pouco se parece com a língua falada por seus antepassados. E pouco se parece com a língua falada no país em que vivem.

Meu avô e sua família moram em uma dessas casas. Uma casa de madeira que foi recém construída. Ela é emoldurada por um grande morro verde. Na sua lateral, corre um rio cristalino.

São os anos 1960. Ali não existe telefone, TV e chuveiro. Não há luz elétrica. Não há energia elétrica. Não chegam jornais e revistas.

Existe um rádio com recepção ruim, movido à bateria, que noticia os acontecimentos.

2.

É verão.

Dia de Santa Luzia. 

Meu avô, seu cunhado e seu primo planejam caçar na floresta. Os três se encontram de manhã cedo, em uma grande pedra coberta de limo, na beira da estrada. Cada um está acompanhado por um cachorro. Combinam que, no final da tarde, eles se encontrarão novamente naquele mesmo ponto para repartir o que cada um havia capturado.

Eles entram na floresta.

Cada um escolhe um caminho diferente.

Os três cachorros, ao invés de acompanharem cada um dos três homens, acompanham o primo. Cada um dos homens leva uma espingarda.

O sol está se pondo.

Meu avô e seu cunhado encontram-se no ponto combinado, cada um carregando os animais capturados.

Anoitece.

Não há nenhum sinal do primo e dos três cachorros.

Depois de aguardar algum tempo no ponto combinado, meu avô e o cunhado entram de novo na floresta para procurar o primo. 

Começa uma forte tempestade de verão, deixando todas as superfícies escorregadias.

É impossível prosseguir.

Os dois retornam para a grande pedra coberta de limo.

Em uma última tentativa, meu avô e seu cunhado apontam as espingardas para o céu.

Atiram algumas vezes, no intuito de sinalizar suas presenças ali.

Silêncio.

Nenhum tiro em resposta.

Meu avô e seu cunhado repartem a caça. Cada um volta para sua casa.

Enquanto meu avô janta, os três cachorros aparecem na porta de casa, sozinhos, sem qualquer indício da presença do primo.

3.

Meu avô, depois de ir à casa do primo e à casa do sogro do primo, descobre que ele não havia regressado da caçada.

Organizam um grupo de buscas, formado pelos habitantes da região.

Todos entram na floresta à procura do primo desaparecido. A umidade e o calor dificultam a missão. Vasculham os pontos mais altos e baixos, as zonas mais fechadas e pedregosas.

A busca dura três dias.

Nada é encontrado.

Um boletim de ocorrência sobre o desaparecimento do primo é registrado na delegacia mais próxima.

4.

A polícia começa a investigar o desaparecimento.

Meu avô e seu cunhado tornam-se os principais e únicos suspeitos.

O primo desaparecido era marceneiro e, meses antes do ocorrido, havia concluído a construção da casa de madeira do meu avô, e estava em vias de terminar a casa do cunhado.

A polícia acredita que ambos arquitetaram o assassinato do primo com o intuito de não pagar o valor devido pela conclusão do trabalho de construção das casas.

Como todos se conhecem, falam a mesma língua, fazem parte da mesma família e pertencem à mesma comunidade de imigrantes, não existem contratos de trabalho e prestação de serviços por escrito.

Não existem recibos, notas, comprovantes de depósito.

Ninguém possui conta bancária.

Os acordos são estabelecidos pela confiança.

As palavras selam os negócios.

Os pagamentos são feitos em dinheiro vivo, quando não em cabeças de gado, vacas, leite, queijos, sacos de feijão, milho, aipim, vinho.

Não existe comprovação de que meu avô e seu cunhado haviam pago pelos serviços do primo. Somente os seus relatos, as suas palavras.

O fato de falarem uma língua estranha entre si e o fato de terem dificuldade de se comunicar com aqueles que falavam a língua do país, torna tudo mais complicado.

Apesar de pertencerem a um grupo de descendentes de imigrantes que concordam com a máxima latina “ubi bene, ubi patria” [Onde se (vive) bem, aí (está) a pátria], há um clima de desconfiança. 

Ainda são vistos como elementos de desordem, como parasitas.

Os grupos que imigraram mais recentemente são escarnecidos ou maltratados pelos descendentes dos primeiros colonizadores, que acreditam ter mais direitos à identidade nacional e às terras.

Apesar das fricções e disputas entre os grupos, todos são colonizadores e os verdadeiros proprietários das terras haviam sido expulsos delas: os índios.

5.

Os policiais desejam arrancar a confissão do crime.

As visitas noturnas ao meu avô e ao cunhado se tornam frequentes. As visitas acontecem separadamente.

Noite de chuva.

Os policiais chegam.

Levam meu avô.

Entram na floresta.

Escolhem um lugar onde a vegetação atua como uma barreira acústica natural para qualquer tipo de som.

Começa o interrogatório.

Os policiais dão tapas, socos e pontapés por todo corpo do meu avô, principalmente na cabeça.

Deitam-no de costas, imobilizando-o com a cabeça inclinada para trás. Lançam jorros de água sobre a sua face, para dentro das vias respiratórias.

Afogamento simulado.

O afogamento acontece também dentro do rio que passa na lateral da casa do meu avô.

Os policiais seguram a cabeça dele no fundo do rio até o limite.

Um minuto. Dois minutos.

As reações são várias.

Vômito, perda da consciência.

Gritos de socorro.

Pedidos de ajuda.

Os afogamentos simulados se repetem durante meses.

As ações dos policiais também variam.

Às vezes, levam meu avô para a floresta, obrigando-o a indicar o lugar onde enterrou o corpo.

Às vezes, na floresta, meu avô é obrigado a cavar um buraco do tamanho de um corpo humano. Ele é deitado dentro do buraco. Falam que vão enterrá-lo vivo.

Às vezes, apontam uma arma de fogo para ele. Às vezes, batem o cabo da arma na cabeça dele, repetidas vezes.

Meu avô não admite qualquer tipo de envolvimento no desaparecimento do primo.  

6. 

O caso foi encerrado por falta de provas concretas, um ano depois do sumiço do primo, no dia de São Francisco Sales.

Até hoje não se sabe ao certo o que aconteceu.

Na versão que a polícia utilizou para encerrar o caso, o primo teria, na realidade, fugido. Na comunidade, falavam até que, ocasionalmente, ele voltava escondido à noite para observar, de longe, os filhos.

Em uma versão alternativa da história, o primo teria se perdido na floresta e nunca mais saído. Diziam que, para andar lá, era necessário escutar todos os sinais.

Uma outra versão se espalhou pela comunidade. Diziam que o primo encontrou, no meio do caminho, um fantasma, uma alma errante dos mortos: um anhangá. Um espírito indígena que persegue aqueles que caçam de forma indiscriminada. Ele pode aparecer como um veado branco, ou um tatu gigante ou um peixe acará.

Talvez o primo tenha sido vítima de uma febre alta que o levou à loucura.

Quem sabe, tenha sido uma espécie de vingança da floresta. 

Ou uma vingança dos indígenas desapropriados de suas terras. 

Talvez, o primo, ao invés de caçador, tenha se tornado caça.

7.

Logo após o caso ter sido encerrado, meu avô foi, ano após ano, perdendo a visão e a audição.

Meu pai, minhas tias e meus tios acreditam que a sua condição foi provocada, principalmente, pelas sucessivas agressões policiais.

Meu avô faleceu em 2018, com 94 anos, completamente cego e surdo.

The work “Strange body” started from a personal story.

***

My grandfather, a descendant of Italian immigrants and a resident of a small municipality in a rural area of ​​Rio Grande do Sul, was accused of killing his cousin in the 1960s, in the middle of a forest. For a year, he was visited constantly by police officers in order to obtain a confession of the crime. Visits always involved some form of physical violence and / or torture. After a year, the case was closed due to lack of evidence and remained unsolved. After that, my grandfather was, year after year, losing his sight and hearing.

***

Twenty-three landscape paintings, by unknown authors and from different periods, collected over ten years, were covered with layers of black tulle, in order to obscure the painted image. The paintings were placed side by side, joined by the horizon line of each composition - forming a kind of unique landscape. Alongside this, seven photographs were taken from one of the rare video records I have of my grandfather, recorded just before his death. Photographs are sequential frames. Each photograph marks the beginning and end of one of the seven parts of a narrative, which were cut out on acetate sheets and distributed along the horizon line.

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The seven parts of the narrative follow below:

1.

This is a story my grandfather told my father and my father told me.

Virgin forest.

A dramatic forest, extraordinary, a spectacle capable of surpassing human knowledge and intellect.

This forest is in a mountainous area. To access it, just through a long dirt road. The road is dotted with some houses. All houses have in common the fact that they are inhabited by descendants of immigrants.

The residents speak to each other in a strange language. Little resemblance to the language spoken by their ancestors. And little resemblance to the language spoken in the country in which they live.

My grandfather and his family live in one of these houses. A wooden house that was recently built. It is framed by a large green hill. On its side, a crystalline river flows.

It is the 1960s. There is no telephone, TV and shower. There is no electric light. There is no electricity. Newspapers and magazines don't arrive.

There is a radio with poor reception, powered by battery, that reports the events.

2.

It's summer.

Santa Luzia Day.

My grandfather, his brother-in-law and his cousin plan to hunt in the forest. The three meet early in the morning, on a large slime-covered stone, by the side of the road. Each is accompanied by a dog. They agree that, at the end of the afternoon, they will meet again at the same point to share what each one had captured.

They enter the forest.

Each chooses a different path.

The three dogs, instead of accompanying each of the three men, accompany their cousin. Each of the men carries a shotgun.

The sun is setting.

My grandfather and his brother-in-law meet at the agreed point, each carrying the captured animals.

Nightfall.

There is no sign of the cousin and the three dogs.

After waiting for a while at the appointed spot, my grandfather and brother-in-law go back into the forest to look for their cousin.

A strong summer storm begins, leaving all surfaces slippery.

It is impossible to proceed.

The two return to the large slime-covered stone.

In one last attempt, my grandfather and his brother-in-law aim the shotguns at the sky.

They shoot a few times in order to signal their presence there.

Silence.

No shot in response.

My grandfather and his brother-in-law share the hunt. Each returns to his home.

While my grandfather is dining, the three dogs appear at the door of the house, alone, without any indication of their cousin's presence.

3.

My grandfather, after going to his cousin's house and his cousin's father-in-law's house, finds out that he had not returned from the hunt.

They organize a search group, formed by the inhabitants of the region.

Everyone enters the forest in search of their missing cousin. The humidity and the heat make the mission difficult. They search the highest and lowest points, the most closed and rocky areas.

The search lasts three days.

Nothing is found.

A police report about his cousin's disappearance is registered at the nearest police station.

4.

The cops begin to investigate the disappearance.

My grandfather and his brother-in-law become the main and only suspects.

The missing cousin was a cabinetmaker and, months before the event, he had completed the construction of my grandfather's wooden house, and was in the process of finishing his brother-in-law's house.

The police believe that they both designed the murder of their cousin in order not to pay the amount due for completing the construction work on the houses.

As they all know each other, speak the same language, are part of the same family and belong to the same immigrant community, there are no written employment and service contracts.

There are no receipts, notes, deposit receipts.

Nobody has a bank account.

Agreements are established by trust.

Words seal business.

Payments are made in cash when not in cattle, cows, milk, cheese, bean bags, corn, cassava, wine.

There is no evidence that my grandfather and his brother-in-law had paid for his cousin's services. Only your reports, your words.

The fact that they speak a foreign language among themselves and the fact that they have difficulty communicating with those who spoke the language of the country, makes everything more complicated.

Despite belonging to a group of descendants of immigrants who agree with the Latin maxim "ubi bene, ubi patria" [Where one (lives) well, there (is) the homeland], there is a climate of distrust.

They are still seen as elements of disorder, as parasites.

The groups that immigrated most recently are scorned or mistreated by the descendants of the first colonizers, who believe they have more rights to national identity and land.

Despite the frictions and disputes between the groups, they are all colonizers and the real owners of the land had been expelled from them: the Indians.

5.

The cops want to start the murder confession.

The nocturnal visits to my grandfather and brother become frequent. Visits take place separately.

Night rain.

The cops arrive.

They take my grandfather.

Enter the forest.

Choose a place where the vegetation acts as a natural acoustic barrier for any type of sound.

The interrogation begins.

The cops slap, punch and kick all over my grandfather's body, especially on the head.

They lay him on his back, immobilizing him with his head tilted back. They spray water over your face into the airways.

Simulated drowning.

Drowning also happens inside the river that runs along the side of my grandfather's house. The cops hold his head at the bottom of the river to the limit.

One minute. Two minutes.

The reactions are many.

Vomiting, loss of consciousness.

Screams for help.

The simulated drownings are repeated for months.

The actions of police officers also vary.

Sometimes they take my grandfather into the forest, forcing him to indicate the place where he buried the body.

Sometimes, in the forest, my grandfather is forced to dig a hole the size of a human body. He is lying in the hole. They say they're going to bury him alive.

Sometimes they point a gun at him. Sometimes they hit the gun handle on his head, over and over.

My grandfather does not admit any involvement in the disappearance of his cousin.

6.

The case was closed for lack of hard evidence, a year after his cousin disappeared on San Francisco Sales Day.

To this day no one knows for sure what happened.

In the version that the police used to close the case, the cousin would actually have fled.

In the community, they talked until, occasionally, he came back hidden at night to observe his children from afar.

In an alternative version of the story, the cousin would have been lost in the forest and never left. They said that to walk there, you had to listen to all the signals.

Another version has spread throughout the community. They said that the cousin found, in the middle of the way, a ghost, a wandering soul of the dead: an anhangá. An indigenous spirit that chases those who hunt indiscriminately. It can appear as a white deer, or a giant armadillo or a fish.

Perhaps his cousin was the victim of a high fever that drove him crazy.

Who knows, it was a kind of forest revenge.

Or a revenge of the indigenous people expropriated from their lands.

Perhaps, cousin, instead of hunter, hunting has become.

7.

Shortly after the case was closed, my grandfather was, year after year, losing his sight and hearing.

My father, my aunts and uncles believe that their condition was caused mainly by successive police attacks.

My grandfather passed away in 2018, aged 94, completely blind and deaf.