
colírios
eye drops
2014
Caixas de papel cartão recortadas à laser e impressão ofsete sobre papel sulfite
[Laser-cut cardboard boxes and offset printing on sulphite paper]
3 x 3 x 7 cm [cada caixa/each box]
15 x 10 cm [cada bula/each package insert]
Há que se encarar a crítica que, com Colírios, Ismael Monticelli dispara à arte. Ainda que as bulas de cada colírio funcionem como espécies de homenagem aos autores que lhes dão nome e sentido, é crucial perceber que, ao aproximar-se das perspectivas ontoepistêmicas de cada um deles, Monticelli circunscreve com precisão suas operações no campo da produção e do apagamento dos regimes de visibilidade. Isso se evidencia nas indicações dos colírios: “solução oftálmica indicada para elaborar categorias para todas as coisas” (Jorge Luis Borges); “solução oftálmica indicada para separar a memória da imaginação” (Milton Santos); “solução oftálmica indicada para olhar, ao mesmo tempo, o passado e o futuro” (Walter Benjamin); “solução oftálmica indicada para separar as coisas de sua maneira de aparecer” (Merleau-Ponty); “solução oftálmica indicada para a construção de um esquema de observação para todas as coisas do mundo” (Ítalo Calvino).
Tomando o olho como ponto de partida, o que Colírios dá a ver é que os assim chamados “regimes ópticos” da arte não se restringem aos modos de representar ou produzir imagens, mas habitam e coproduzem as próprias políticas do olhar e do ser olhado. Políticas que, por sua vez, não podem ser dissociadas do conjunto de nossos corpos e vidas, uma vez que salvaguardam o direito à perspectiva que tudo vê para alguns, enquanto, ao contrário, negam a outros o acesso à visibilidade. Agir sobre o olho é agir diretamente sobre o corpo — não apenas o nosso, mas também o corpo do outro.
(Clarissa Diniz)
It is necessary to confront the critique that, with his Eye Drops, Ismael Monticelli is directing at art. Although the package inserts of each eye drop serve as a kind of homage to the artists who give them their name and meaning, it is crucial to recognize that, by approaching the onto-epistemic perspectives of each author addressed, Monticelli precisely circumscribes his operations within the field of the production and erasure of visibility regimes. This is evidenced by the indications of the eye drops: “ophthalmic solution indicated for elaborating categories for all things” (Jorge Luis Borges); “ophthalmic solution indicated for separating memory from imagination” (Milton Santos); “ophthalmic solution indicated for simultaneously looking at the past and the future” (Walter Benjamin); “ophthalmic solution indicated for separating things from their way of appearing” (Merleau-Ponty); “ophthalmic solution indicated for constructing an observation scheme for all things in the world” (Italo Calvino).
Taking the eye as a starting point, what the Eye drops reveal is that the so-called “optical regimes” of art are not limited to modes of representation or image production; rather, they inhabit and co-produce the very politics of seeing and being seen. Politics that, in turn, cannot be isolated from the rest of our bodies and lives, as they safeguard the right to an all-seeing perspective for some while, conversely, denying others access to visibility. Acting upon the eye is acting directly upon the body—not only our own but also that of the other.
(Clarissa Diniz)











